Com quem está o nosso poder?

Recentemente meu marido me contava um pequeno acontecimento no supermercado. Faltava cerca de meia hora para encerrar as atividades e a atendente da área de frios estava toda afobada. Queria terminar logo porque desejava ir ao culto de sua igreja, que se iniciaria em dez minutos. Segundo ela, seu desespero vinha do fato que o pastor ficava muito bravo com as pessoas que chegavam atrasadas.

Nesse desespero todo, começou a trabalhar de forma atrapalhada. Segundo meu marido, da forma como ela estava angustiada e acelerada, poderia acabar se machucando na máquina de fatiar ou com as grandes facas de corte.

Ele voltou intrigado para casa. Como alguém pode criticar o atraso de quem estava no trabalho? Era óbvio que ela se atrasaria, pois o fim do seu turno era posterior ao início do culto. Mas ela não estava trabalhando, honrando seus compromissos profissionais? E ainda, o importante não era que ela fosse e participasse de alguma forma daquela celebração?

Claro que não quero entrar no mérito da situação, da pessoa e da congregação em si. Sabemos que atividades em grupo necessitam de regras.

A questão que me chamou a atenção era a forma como ela começou a tratar ela mesma. Ou seja, no afobamento de não desagradar outra pessoa, ela começou a trabalhar de forma imprudente e poderia ter se machucado gravemente. E essa história acionou uma pergunta em mim: com quem está o nosso poder?

No caso da moça da história, ao dar tanta atenção à reação de outra pessoa ela também lhe entregou todo o seu poder pessoal. Tanto que ela passou a se por em risco para atender à demanda do outro. 

Já falei outras vezes aqui que a nossa energia está onde a atenção está. Se a minha atenção está no outro, minha energia também será encaminhada para ele. E dessa forma eu entrego meu poder para outra pessoa.

Observando as pessoas, percebi ainda que geralmente isso ocorre em série. Raramente entregamos nosso poder para apenas uma pessoa. Quando nos acostumamos a abrir mão de nosso poder pessoal, passamos a entregá-lo para várias pessoas que ocupam lugar de destaque na nossa vida: pai, mãe, chefes, líderes religiosos, cônjuges, filhos…

Ou seja, nossa cabeça, atenção e anseios estão sempre voltados  para outra pessoa. E começamos a agir de forma temerária conosco. No caso do mercado, a moça poderia ter se machucado – e aí sim ela não iria para o culto mesmo! Para atender o outro, eu esqueço de mim.

Por outro lado, não estou dizendo que devemos só fazer o que queremos. Dormir o dia inteiro se der vontade, mandar o chefe passear, sermos estúpidos com a nossa família. Isso são atitudes, mas não significa obrigatoriamente que você esteja em seu poder pessoal quando as toma. Você pode tomá-las porque quer atingir o outro – e isso significa que a sua atenção ainda está nele! 

Encontrar esse ponto de equilíbrio entre o agir e o ceder é um desafio, cuja chave costuma se encontrar na nossa consciência. O que chamo a atenção aqui é que façamos a coisa conscientemente, a partir do nosso ponto de vista. Se, por exemplo, tenho que atender uma demanda do meu chefe com a qual não concordo, devo mergulhar dentro de mim e me convencer porque estou optando por atendê-la. Talvez porque eu realmente precise do emprego ou porque acredito que meu chefe tenha algo em mente que eu não consegui entender na totalidade. Enfim… eu assumo a posição de optar por fazer as coisas. O meu poder pessoal escolhe fazer ou não fazer – e assumir todas as responsabilidades por isso.

Enquanto nós dizemos que fazemos algo porque alguém nos obriga, porque queremos agradar, porque temos que fazer ou porque queremos ser certinhos, nós damos o poder para o outro. A grande questão não é a ação que tomamos, mas a intenção e consciência pessoal que acompanham essa  ação.

E antes que você diga que todos  temos que fazer muitas coisas que não gostamos, já adianto que sei disso. Sei também que isso é angustiante. Mas será mais opressor ainda se você não começa a se comprometer consigo mesmo  a buscar suas melhores opções, nem que sejam em médio ou longo prazo. Ou seja, vou fazer isso que não gosto mas vou procurar um jeito ou traçar uma estratégia para não ter que fazer mais isso comigo mesmo.

Se cuide, se comprometa consigo mesmo e faça as suas próprias escolhas. Não entregue seu poder, sua vida e seus sonhos a outros, acreditando que eles cuidarão deles melhor que você, porque isso não acontecerá…

Seja a sua melhor opção, sempre!

Elisa Rodrigues Autor

Buscadora. Inquieta. Sonhadora. Rabugenta (às vezes). Cheia de ideias. Principalmente, alguém que exercita diariamente um olhar de encantamento para beleza do mundo.